A maior organização criminosa do Brasil e um dos principais atores globais do tráfico, o Primeiro Comando da Capital (PCC), está avançando de forma planejada sobre a capital e a Região Metropolitana de Salvador. Esta logística de expansão gradual e estruturada, que difere da maneira mais explosiva e, muitas vezes, desorganizada de grupos locais, partiu das antigas bases da facção nos presídios, consolidou-se primeiro no interior da Bahia e agora mira nos grandes centros.
O impacto desse movimento, segundo especialistas, é um cenário ainda mais caótico para a segurança pública.
Expansão: Da Prisão ao Interior, Rumo à Capital
Na Bahia, o PCC sempre utilizou o sistema prisional como seu centro de comando, a partir dos anos 2000. De dentro das cadeias, estruturava a logística de drogas e armas, além de impor a disciplina entre seus membros, garantindo controle mesmo sem uma presença ostensiva nas ruas.
O grupo, então, identificou brechas em cidades médias e pequenas do interior, locais que eram pouco disputados por facções tradicionais como o Bonde do Maluco (BDM). Em Ipiaú, por exemplo, o grupo paulista detém sozinho o comércio de entorpecentes e armas. Essa estratégia permitiu ao PCC conquistar rotas de tráfico menos visadas pela polícia e pontos de venda no interior.
Com o território consolidado no interior, o passo seguinte foi a disputa por mercados maiores, em áreas populosas e de grande valor estratégico para o tráfico.
A Consolidação da Guerra e o Alerta dos Especialistas
O coronel Antônio Jorge, professor de Direito da Estácio-FIB e especialista, comenta: “Esse movimento torna o cenário de violência muito dinâmico e conflituoso, pois as facções estão em constante disputa territoriais. Seja por alianças de grupos nacionais com locais – com as quais se associam ou atuando diretamente – disputando espaço com outras organizações nacionais, a exemplo do Primeiro Comando da Capital e o Comando Vermelho (CV)”.
“Se houver algum tipo de pacto entre essas facções, como já foi tentado, ou se alguma se tornar hegemônica, as mortes devem diminuir, ao mesmo tempo, em que o narcotráfico será potencializado, porque as duas maiores organizações criminosas poderão otimizar a rota do tráfico internacional de drogas e armas, de fornecedores. Caso contrário, assistiremos e conviveremos com mais disputas territoriais e, consequentemente, um aumento dos homicídios”, explica Antônio Jorge.
O historiador Dudu Ribeiro, integrante da Rede de Observatório da Segurança, complementa, citando o modelo do tráfico de drogas transacional: “Nós estamos falando que, há muito tempo, que este mercado, altamente lucrativo em todo o mundo, ele não existe sem a participação, com conivência, financiamento e a ação direta de poderosos grupos políticos e econômicos no Brasil e ele tem a característica de ser transnacional”.
Fusões e Crimes em Evidência
Os indícios de que o PCC está acirrando a disputa já se confirmam em eventos criminais. Em 14 de setembro deste ano, o empresário Manoel Marcos Soares, de 31 anos, foi executado com mais de 20 tiros em Candeias, na Região Metropolitana de Salvador (RMS). Ele foi torturado e depois baleado dentro do Condomínio Areias, onde muros e portões ostentam inúmeras pichações com as iniciais da facção paulistana, sugerindo sua autoria.
Fontes policiais informaram que o empresário, ao ir ao local atrás de uma mulher, acabou encontrando traficantes. Ao vasculharem o celular de Soares, descobriram que ele morava em um bairro dominado pelo Bonde do Maluco (BDM).
O condomínio, que antes era território de A Tropa (também chamada de Tropa do A), acabou sendo anexado pelo PCC, conforme fontes da Polícia Civil. Esta fusão ocorreu também em Salvador, quase simultaneamente, em abril deste ano.
Celebração e Redesenho do Tráfico na Capital
Os céus de Salvador foram cobertos por fogos de artifícios em abril, em celebração à mais nova e mortal parceria no cenário de segurança do estado. Em vídeos que circularam nas redes sociais, traficantes afirmavam que determinados bairros passavam a ter a atuação da organização criminosa: “Sussuarana agora é PCC, viu?” fala um traficante. “Baixa da Paz agora é PCC, 1533, viu”, grita outro criminoso em comemoração à mudança para a facção paulista.
Além de Sussuarana, a queima de fogos ocorreu em bairros como São Marcos, Pau da Lima, Canabrava, Brotas e Jardim Cajazeiras.
Neste cenário de redesenho do tráfico, os moradores estão em alerta. Em regiões muito próximas, é notada a presença das três maiores facções na capital: São Marcos é majoritariamente PCC; Vila Canária e Canabrava têm maior presença do Comando Vermelho (CV); e Pau da Lima tem todos, mas com predominância do BDM.
Em alguns bairros, o PCC explora a vulnerabilidade social para ganhar aceitação, oferecendo “proteção” ou “ordem”. “Lá, ninguém mexe com a comunidade, pelo contrário, os meninos de agora não são opressores, ao contrário da polícia, que matou o rapaz pelas costas”, conta um morador de Jardim Cajazeiras, referindo-se à morte de Wesley Darlan dos Santos Pereira, de 20 anos, baleado por policiais no dia 20 de setembro.
“A necessidade de hoje real é que a gente perceba que há mudança do padrão de guerra, chamada de guerra de drogas, mas que é uma guerra contra as pessoas negras em territórios periféricos, isso incentiva, fortalece essas facções”, comenta Dudu Ribeiro, cofundador e diretor-executivo do Iniciativa Negras.
Ações Audaciosas contra Autoridades
As ações de enfrentamento do PCC não se restringem a rivais e agentes da linha de frente. A organização é audaciosa e possui um grupo de elite para executar autoridades, como foi o caso do ex-delegado-geral da Polícia Civil de São Paulo, Ruy Ferraz. Ele foi perseguido e executado por encapuzados em 15 de setembro deste ano. Quando estava à frente da PC-SP, Ferraz havia determinado a transferência de lideranças da organização para presídios federais. O ex-servidor público não tinha escolta do estado, assim como seus colegas baianos.
Posicionamento da SSP-BA
Em nota, a Secretaria da Segurança Pública (SSP-BA) informou que o reforço das ações de inteligência contra o crime organizado tem resultado no aumento das apreensões de drogas e de armas de fogo, além de um maior número de prisões em flagrantes e cumprimentos de mandados.
A SSP-BA enfatiza que, nos últimos dois anos e nove meses, 250 líderes de facções foram alcançados. Desse total, trinta estavam escondidos em outros estados da federação e foram interceptados durante operações integradas. A Secretaria destaca que o combate incessante contra as facções e a captura de lideranças têm relação direta com a redução de 7,6% das mortes violentas no estado em 2025.
A nota reitera “o compromisso de atuação firme contra o crime organizado, sempre com ações pautadas pela legalidade” e lembra que informações sobre integrantes de facções podem ser enviadas através do telefone 181 (Disque Denúncia da SSP), com anonimato garantido por lei.










